Apague os faróis.
Ligue as luzes internas.
Identifique-se ao porteiro.
As nuvens com formações pesadas conformavam-se em esperar
sua derradeira hora de despencar. Era de tarde. Tarde de outono.
Não apagou os faróis.
Não era noite.
Tudo era um suave som de música calma.
O céu era bom e a vida era bonita e as crianças respondia
com seus gritos de “pegaaaaa”, “gollll” e “pule num pé só”.
Não ligou as luzes internas.
O porteiro é bom e sua vida era uma criança. Tudo era bonito
para ele naquela tarde de nuvens conformadas e o motorista que não se
identificou fez começar seus dentes ranger.
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Num outro tempo, o menino chamado Marcio e seu amigo
conversam assuntos juvenis quando são interpelados na rua. Eram quase treze
horas da tarde no tempo de Marcio e sua vida era boa e ele bonito. Bonito como
as crianças de treze anos costumam ser.
Quando então... Esse "então" sempre o prelúdio de
algo que vai tirar os sujeitos de sua rotina e mergulha-los no que chamamos
comumente de ação. Mas o Marcio não ouviu o "então" que da inicio à
ação e portanto não percebeu que uma história estava se iniciando tendo ele
como um dos protagonistas. Ele viu sim foi um homem comum para-lo na rua e
perguntar onde era a rua...
Qual rua mesmo??? Qual o nome?! Isso importa?
Não. Não importa não.
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Nos tempos do porteiro este olha o carro parado à frente de
sua guarita e acende um cigarro.
Não se identificou ao porteiro.
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Nesse outro tempo, aquele do mocinho que conhecemos como
Marcio , esse mesmo ouve do homem a pergunta e quando vai
responder, o homem muda de assunto.
- Eu tenho um revolver aqui guardado comigo. Me passem o seu
dinheiro agora, garotos.
Marcio não tem dinheiro.
- Não vou passar nada.
Marcio cutuca seu amigo.
- Não passarei. Cadê sua arma? Na cara dura, heim?
- Se eu mostrara arma vai ser pra usa-la. Quer arriscar?
Marcio cutuca seu amigo e ele passa o dinheiro. Marcio não
porque ele não tinha.
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Nos tempos da guarita o porteiro tenta desliga o rádio mas
ao invés disso ele aumenta o volume.
Interfona para a segurança, mas só ouve como resposta a
estática.
É dia claro ainda. Os horrores ainda não acordaram para o
seu sangrento turno. Ainda sob a luz do sol nada pode dar errado e nenhum fato
feio ou mau pode acontecer.
E quando tenta finalmente desligar o rádio, ele
inadvertidamente muda de estação e sintoniza em um programa de canto
gregoriano. Em seu torpor agora surgido e gradativamente crescente e
desconhecendo o significado dessa música, nosso amigo porteiro acende outro
cigarro sem que o primeiro tenha ainda acabado.
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Nos tempos da vida de Marcio, o homem vai embora depois de
ter roubado apenas um dos garotos.
- Seu covarde. Se ainda fosse para dar o seu dinheiro.
Marcio não fala nada. Fica parado, estático.
- Mas nãoooo. Eu é que tava com a grana. E você lisinho.
Como sempre!!!
Marcio sai da sua estagnação quando vê cinco moças passando,
de uniforme de escola que nem ele e seu amigo. As garotas riem e quando ele
olha para elas, elas riem mais ainda.
- E era uma nota preta, seu imprestável. Droga.
Marcio pisca para as garotas e elas riem mais ainda.
- Droga, droga, droga. Uma grana alta.
Uma das garotas faz que vai acenar para ele e a outra a
impede como dizendo para ela "ter modos", para não facilitar tanto.
Marcio puxa seu amigo e vai na direção das meninas.
Uma conversa se inicia entre os sete jovenzinhos.
Marcio não da muita bola para o otimismo pois tudo pode
acontecer, até mesmo o pior.
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Nos tempos do carro com faróis ligados e luzes internas
desligadas, o porteiro nota que as câmeras não operam.
Não estão mais funcionando porque?! Porque, heim? Porque????
Após esquecer que tinha acendido um segundo cigarro ele
acende um terceiro cigarro nas brasas do primeiro que ainda não virou guimba e
vai na direção do carro parado sem dar trela para o seu pessimismo pois segundo
pensa tudo pode acontecer até mesmo o melhor.
"O Melhor e O Pior de Marcio e do Porteiro" é um
conto de Wanderson Silva de Souza.
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