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quarta-feira, 12 de junho de 2013

O Melhor e O Pior de Marcio e do Porteiro (by W.S.S.)

Apague os faróis.
Ligue as luzes internas.
Identifique-se ao porteiro.

As nuvens com formações pesadas conformavam-se em esperar sua derradeira hora de despencar. Era de tarde. Tarde de outono.

Não apagou os faróis.

Não era noite.
Tudo era um suave som de música calma.
O céu era bom e a vida era bonita e as crianças respondia com seus gritos de “pegaaaaa”, “gollll” e “pule num pé só”.

Não ligou as luzes internas.

O porteiro é bom e sua vida era uma criança. Tudo era bonito para ele naquela tarde de nuvens conformadas e o motorista que não se identificou fez começar seus dentes ranger.

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Num outro tempo, o menino chamado Marcio e seu amigo conversam assuntos juvenis quando são interpelados na rua. Eram quase treze horas da tarde no tempo de Marcio e sua vida era boa e ele bonito. Bonito como as crianças de treze anos costumam ser.
Quando então... Esse "então" sempre o prelúdio de algo que vai tirar os sujeitos de sua rotina e mergulha-los no que chamamos comumente de ação. Mas o Marcio não ouviu o "então" que da inicio à ação e portanto não percebeu que uma história estava se iniciando tendo ele como um dos protagonistas. Ele viu sim foi um homem comum para-lo na rua e perguntar onde era a rua...
Qual rua mesmo??? Qual o nome?! Isso importa?
Não. Não importa não. 

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Nos tempos do porteiro este olha o carro parado à frente de sua guarita e acende um cigarro.

Não se identificou ao porteiro.

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Nesse outro tempo, aquele do mocinho que conhecemos como
Marcio , esse mesmo ouve do homem a pergunta e quando vai responder, o homem muda de assunto.
- Eu tenho um revolver aqui guardado comigo. Me passem o seu dinheiro agora, garotos.
Marcio não tem dinheiro.
- Não vou passar nada.
Marcio cutuca seu amigo.
- Não passarei. Cadê sua arma? Na cara dura, heim?
- Se eu mostrara arma vai ser pra usa-la. Quer arriscar?
Marcio cutuca seu amigo e ele passa o dinheiro. Marcio não porque ele não tinha.

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Nos tempos da guarita o porteiro tenta desliga o rádio mas ao invés disso ele aumenta o volume.
Interfona para a segurança, mas só ouve como resposta a estática.

É dia claro ainda. Os horrores ainda não acordaram para o seu sangrento turno. Ainda sob a luz do sol nada pode dar errado e nenhum fato feio ou mau pode acontecer.

E quando tenta finalmente desligar o rádio, ele inadvertidamente muda de estação e sintoniza em um programa de canto gregoriano. Em seu torpor agora surgido e gradativamente crescente e desconhecendo o significado dessa música, nosso amigo porteiro acende outro cigarro sem que o primeiro tenha ainda acabado.

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Nos tempos da vida de Marcio, o homem vai embora depois de ter roubado apenas um dos garotos.
- Seu covarde. Se ainda fosse para dar o seu dinheiro.
Marcio não fala nada. Fica parado, estático.
- Mas nãoooo. Eu é que tava com a grana. E você lisinho. Como sempre!!!

Marcio sai da sua estagnação quando vê cinco moças passando, de uniforme de escola que nem ele e seu amigo. As garotas riem e quando ele olha para elas, elas riem mais ainda.

- E era uma nota preta, seu imprestável. Droga.
Marcio pisca para as garotas e elas riem mais ainda.
- Droga, droga, droga. Uma grana alta.

Uma das garotas faz que vai acenar para ele e a outra a impede como dizendo para ela "ter modos", para não facilitar tanto.
Marcio puxa seu amigo e vai na direção das meninas.
Uma conversa se inicia entre os sete jovenzinhos.
Marcio não da muita bola para o otimismo pois tudo pode acontecer, até mesmo o pior.

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Nos tempos do carro com faróis ligados e luzes internas desligadas, o porteiro nota que as câmeras não operam.

Não estão mais funcionando porque?! Porque, heim? Porque????

Após esquecer que tinha acendido um segundo cigarro ele acende um terceiro cigarro nas brasas do primeiro que ainda não virou guimba e vai na direção do carro parado sem dar trela para o seu pessimismo pois segundo pensa tudo pode acontecer até mesmo o melhor.


"O Melhor e O Pior de Marcio e do Porteiro" é um conto de Wanderson Silva de Souza.     

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Axé Tupã - Trupe Experimentalista e Revolucionária de Multi Arte e Multitude

Axé Tupã para todos nós,
O Axé Tupã é uma trupe composta por poetas, músicos, atores, fotógrafos, desenhistas e toda sorte de artistas.



SOBRE A TÔNICA E O OBJETIVO DA TRUPE
A tônica da trupe são três, a saber:

1) A exposição da arte de cada artista componente da trupe de forma que unidos tenham mais força e um alcance mais longo ao se expressar.

2) Sempre primando pelo experimentalismo -  A multi arte em si ou seja, saraus de poesias, vídeo clipes de músicas(somente de músicas de membros da trupe ou de amigos e conhecidos, ou seja, de músicos ainda não consagrados), curtas em áudio visual adaptando para o formato com atores os contos de diversos escritores ainda não consagrados; a exposição de artes plasticas e artes visuais de um modo geral.  

3) Buscar a circulação de informações sobre o mundo atual e o pensamento critico. Desenvolver entre os próprios membros da Trupe e também entre o público a capacidade de dialogar e de desenvolver suas próprias e independente visões de mundo.

SOBRE O MÉTODO DA TRUPE
O método da trupe consiste em sempre realizar projetos pontuais (de um dia) junto com projetos mais longos. Ou seja, cada reunião de planejamento de uma atividade mais longa será também evento em si, ou seja uma atividade de apenas um dia.
Esse método faz com que a trupe não se perca em planejamentos infinitos onde não existe pratica. A realização de uma atividade a curto prazo estimula, motiva e alimenta todos os membros para que sigam na realização das atividades e projetos mais complexos e longos.

Oficialmente ele será re-criado nos dias 22 e 23 de junho de 2013, um sábado e um domingo, no Parque de Madureira, na Praça do Samba, de meio dia até as cinco da tarde.
Ou seja cada encontro é uma reunião para planejar alguma atividade a longo prazo e também é e em si uma atividade de um único dia.
SOBRE O PRIMEIRO E O SEGUNDO ENCONTRO – DIAS 22 E 23, SÁBADO E DOMINGO DE JUNHO

Nos primeiros dias, 22 e 23 de junho(um sábado e um domingo) iremos realizar as seguintes atividades:

ATIVIDADES PRATICAS –
1) Realização de uma crônica do parque. Essa crônica será feita por meio de fotos, desenhos e escrita. Ou seja, levem maquinas fotográficas, celulares e cadernos.

2) Iremos também realizar um sarau de poesia.

3) Uma leitura dramatizada de um texto teatral a ser confirmado muito em breve.
PLANEJAMENTO DE ATIVIDADES A LONGO PRAZO -  A realização de um sarau de poesias a ser realizado no mês de agosto e a confecção de três curtas em áudio visual adaptando para as câmeras os contos de três escritores. Em breve será informado quem são esses três escritores.

 No decorrer aqui mesmo na descrição vou citando os nomes dos integrantes à medida que eles forem confirmando.
Axé Tupã para todos nós!

segunda-feira, 15 de abril de 2013

O Senhor do Vento


O Senhor do Vento
"Caminhando na Noite Escura" e "Dias Depois, Um Dia de Sol"


Roteiro e atuação - Raphael F. Monteiro
rapmonteiro22@hotmail.com

Narração - Dinair Fonte
http://dinairfonte.blogspot.com.br/

Agradecimentos especiais ao Diego Marinho
Veja os vídeos clipes dele:
Como uma Flor
Meu Mundo
Tao
Jardim Secreto

Coprodução e assistente de direção -
Dimas de Fonte
http://abcimaginario.blogspot.com.br/

Câmera, Edição, Produção e Direção:
Wanderson Silva de Souza
http://wandersonsilvadesouza.blogspot.com.br/

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

DESAFIO, O GRANDE TEMA


“Era um desafio difícil de aceitar até mesmo como desafio. “

O escritor para de ler um instante e olha para seu irmão.
- Que foi, Adão? Lê aí, cara. Tô ouvindo.
- Só to querendo ver sua reação, Lucas. Normal, cara.

“Moises aceitava bem as dificuldades com as quais sempre lidou desde muito novo. Mas agora com isso era impossível de lidar. Na rua, sem um recurso mínimo que lhe possibilitasse recomeçar. Até mesmo sua força intima estava sem um norte, sem uma direção. Justiça poética foi saber que o seu fim viria justamente daquele inimigo que ele sempre achou que não o atingiria.”

O rapaz depois de ficar um longo tempo calado, com cara de bobo, tenta balbuciar algo - Não estou compreendendo. 
Seu irmão range os dentes e diz com raiva - Não?! É tão simples!!! Ele sempre esteve pronto para a batalha, mas se acostumou demais com os velhos inimigos de sua vida.
 Sorrindo com ironia Lucas indaga- E agora ele esta velho demais para lidar com um novo tipo de desafio?
- Isso mesmo.
- Não vejo força nessa idéia – sentencia e se levanta da cadeira.
O escritor pega em seu braço com firmeza e retruca- Não sabia que agora você era tapado.
Adão olha de modo feroz para seu irmão. O irmão nada diz, Lucas apenas o encara com impaciência e depois olha para o relógio na parede. Adão percebe a violência de seu gesto e larga do braço do irmão.
- Ta bom, tá bom. Mas...
O irmão diz secamente- Ruim.
- Não pedi sua opinião.
- Ruim.
- Dane-se. Não pedi sua opinião.
- Pediu sim, Adão. Venha, vamos para o show. O Nirvana não vai esperar. Estou seco por umas cervas.
- Não vou. Ficarei aqui com Moises. Vai, vai. Vai logo, vai. Sei que você não aguenta ficar muito tempo parado.
- Tá bom, problema seu.  
- É mesmo. Vai, vai. Vai lá se encachaçar.
- E a Laura vai ficar aí junto contigo, ensebando, diante dessa maquina de escrever  neurótica?!
- Não é da sua conta.
- Tá bom. Mas eu vou falar pra ela ir com a gente.
- Tá certo, ela faz o que quiser. Minha diversão esta aqui.
- Hu-hum.
- Aháaaaa, tá certo, eu não vou sossegar até resolver esse impasse.
- Cara, você é neuróoootico!

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Enquanto o Nirvana tocava no estádio, lá fora, os anos passavam num tempo diferente.
- Eí, uma gelada aí, xará.
-Pô, cara, o "Dão" não veio porque??
- Tá lá, no livro dele.
- Neurótico!
- Fala isso de novo, falaaaaa...
- Mas, rapá, tu "meRmo" fala isso.
- Euuu poooosso, "Dão" é meu irmão. "Qué" da licença de eu ver o show, carinha?!!!!

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O show prossegue de modo empolgante. Ou seriam as cervejas, destilados e outros elementos a tornar tudo mais encantador e fascinante?! Isso pouco importa naquele momento, pois tudo se passa nuns poucos minutos de muito SOM, ao passo que os anos se alongam para seu irmão escritor que ficou apenas com a parte da FÚRIA.
Kurt saiu (engatinhando) do palco, e Lucas bebeu uma lata de refrigerante porque estava já farto de tanta cerveja. 
E...Quando Lucas voltou do show, os anos já tinham se passado de modo tão veloz que seu irmão, o neurótico e furioso Adão agora estava casado. Não com Laura, mas com Luisa. E tinham um filho de dezoito anos chamado Luiz.

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- Oláaaa, o show foi bom. Deu mole, xará, de ficar ensebando aí diante dessa tela de computador neurótica.
Luiz meio sonolento - O tio e eu curtimos a vera.
- Sorte do Luiz que ele tem um tio jovem.
- E não vai amadurecer  tão cedo – diz sorrindo – e eu já nasci velho.
- Tá certo – vira-se para o sobrinho – Luiz, pega o copo pra eu beber um vinho aí.
Luisa faz cara feia.
- Táaa, faz mal misturar, to sabendo, Luisa.
 Luiza sem vontade de dar sermão se levanta sem paciência e senta-se no sofá em frente de uma mesa baixa de centro, onde repousa o vinho chileno que ela sorrateiramente bebe sozinha.
- O irmão chega até a tela que a cunhada vem pintando faz uma semana.
Luisa o impede de olhar- Não quero que vejam antes de eu terminar.
- Ihhh, que casal neurótico, sô.
Adão da uma gargalhada e se levanta para pegar um copo de vinho.
- Esse acabou, Lu.
- Pega outro pra gente.
- Outro chileno?
- Só tinha esse de chileno - diz sorrindo.
- Humm, vai vendo, espertinha.
- Eí, esta escrevendo o que agora, Adão – pergunta o irmão.
- Terminei o conto do Moises, alias, ficou tão grande – respira fundo – que transformei num micro romance.
- Conheço um cara na TV comu...
- Deixa, deixa...
- Que foi???
- Ah, lembra de quando eu queria escrever ele sendo derrotado justamente por se ver diante de um desafio inédito? Olha só, queria provar que...
- Lembro, lembro...
Luisa, que agora esta diante de sua tela, com um pincel na mão e na outra uma taça de vinho completa – que cachorro velho não aprende novos truques.
- Pois é, a idéia estava bem clara, faltava estrura-la dentro da trama. Eu sabia que ia ter um fim triste
- Você sabia não, né? Você decidiu que ia ter um fim triste.
Adão não se abala - Eu SABIA que ia ter um fim triste... Algo assim, que eu considero bem real, daí que...
Para de falar e fica calado, como que a esperar algo.
- Fala, cara.
- Tá, tá, é que...
- Ah, não. Vai, ai, fala, já sei que não vou gostar.   
- Cara, eu venci um desafio. Lembra que sempre tive receio de escrever roteiro?!
- Lembro, lembro... vai, falaaaaa logooo, não ENROLA.
- É... pois é...
Adão se cala de novo.
- Não percebe, Lucas? Eu venci um desafio com a qual eu nunca tinha antes lidado. Eu aprendi um truque novo.
Lucas sorri satisfeito pelo irmão - Meu irmão - faz que vai abraça-lo, até que o irmão completa sua fala.
- É... mas aí eu entro em contradição com o meu roteiro. Como posso afirmar, como idéia central da trama que novos desafios para alguém na meia idade são como sentenças de morte se eu acabo de provar o contrario, na minha vida real?!
- Ah, cara, você não tem que corresponder... ahhh, e depois você, você... ahhh, ariéguaaaaa, Deus é mais!
- Não, Lucas. É sério, meu. Esse roteiro não passa a verdade desse meu momento atual de minha vida.
- E daí que...? Daí que...?
- Recusei a proposta de filmar essa minha história. Tenho que rever...
Lucas nada diz, apenas da as costas para o Adão e se dirige até onde estão seu sobrinho e sua cunhada bebendo vinho. Lucas pega um copo e o enche de vinho. Adão se junta aos três.
Os quatro bebem em silêncio.
Até que todos começam a rir. 
- Depois dessa, eu até deixo você olhar meu quadro.
- Deixa. deixa, eu assumo: Somos uma familia de neuróticos.

Autor: Wanderson Silva de Souza

domingo, 13 de março de 2011

NINGUÉM FERIU POLIFEMO, NINGUÉM CEGOU POLIFEMO


Eu sou o Velho, e se vocês são daqueles tipos de pessoas amantes dos relatos dos deuses antigos e das grandes epopeias de homens do mar  eu peço humildemente que atentem para minhas palavras.
Saibam que os panteões não são só compostos por divindades racionais e de espírito cortês e civilizado. Existem também os deuses e imortais violentos que são os modos dos aspectos mais primais e instintivos no próprio ser humano. Tais deidades não são de modo algum menos nobres ou menos necessárias ao entendimento da natureza humana. Posto que somos animais também, não carecemos somente de divindades que nos remetam à nossa faceta mental e lógica. Em nossos porões mais escuros e escondidos, de nossa natureza humana, existem animais que precisam ser reconhecidos e, se possível adestrados, ou ao menos serem levados por nós para “passear”, para que, insatisfeitos por viverem sempre confinados pelo nosso superego, não acabem por se voltar contra nós. Isso é o que se chama “viver em conflito” pois gostemos ou não, e essa não é uma descoberta agradável, esses  “animais do id” são facetas de nosso próprio EU e quando estamos em guerra com ela, estamos em guerra conosco mesmo. Numa guerra conosco mesmo, nós só saímos perdendo.
Como a perceber e reconhecer essa dimensão instintiva-telurica do humano, diferentes culturas em todas as épocas, conceberam variações dos arquétipos do Id. E na cultura Greco-romana, nós temos as Divindades Primordiais.
Ulisses Odisseu, cujo saga foi narrada por Homero em “A Odisseia” é a representação do homem que luta e tenta subjulgar esses aspectos brutais presentes tantos em deuses quanto em mortais. O seu embate com Polifemo fala disso e é, por assim dizer, a versão do “David contra Golias” dos gregos e dos romanos, onde a força bruta é sobrepujada pela astucia e pela inteligência  humana e Sunt Tzu que não me deixe mentir.   
No decorrer da tentativa de Uliisses e seus comandados de retornarem para seus lares, após a sangrenta guerra de Tróia, onde os primeiros saíram vencedores, eles passam por terríveis perdas e perigos. Vou apenas pinçar uma dessas desventuras. A que relata o dramático encontro do Rei Ulisses com o monstruoso filho de Poseidon, conhecido como Polifemo.  
Ulisses e a tripulação de seu navio ancoraram sua nau numa ilha de clima quente e vento seco.
As feras que ali habitavam não incomodavam seus homens. Já acostumados com os combates com as grandes forças vivas da natureza, os homens do mar não se deixavam intimidar tão facilmente.
Entretanto, Ulisses ouve um grito de um dos homens. Ele chama a todos para ver o que encontrou. Quando Ulisses chega acompanhado dos demais, ele se estremece ao olhar o chão. O que parecia um pequeno lago... Um lago que poderia bem ser uma mini piscina natural onde caberiam facilmente uns quatro homens de tamanho médio. E essa piscina...
Bem... o que Ulisses viu e não teve coragem de expressar em palavras, outro homem o fez – Esse pequeno lago tem o formato de uma pegada de pé humano.
Ulisses assume expressão lúgubre.
Outro homem retruca – Não. Nada humano seria capaz de produzir uma pegada dessas.
Ulisses não quer que o pânico se instale entre seus homens. O cansaço e a desesperança já tem sido parceiros indesejáveis de viagens e suficientes para minar as forças dos comandados de Ulisses Odisseu e este  não deseja que o temor se alie aos outros dissabores dessa extenuante viagem.
Por um tempo eles exploraram toda a extensão da ilha e constataram que ali não teriam dificuldade em encontrar suprimentos para reabastecer seu navio para prosseguir a viagem.
E, foi com certo desconforto, que eles foram testemunhando outras pegadas. E o que os deixaram mais ainda aterrorizados foi o fato de que muitas vezes eles viam vários pares de pegadas juntos. Sem duvida a tripulação do Rei Odisseu tinha aportado numa ilha habitada por gigantes.
Ao cair da noite, as feras silenciaram e isso de maneira alguma foi causa de serenidade entre aqueles homens. Decerto, as feras mais conhecidas por eles, e que habitavam aquela ilha, tais como leões, javalis e leopardos, eram o prato principal de predadores muito mais poderosos do que eles e que o pior pesadelo do marinheiro mais supersticioso se nem chegaria perto do que certamente, eles sabiam que os esperava.
No dia seguinte, a exploração teve fim. Ulisses decidiu na noite anterior que o mais sábio seria eles partirem o quanto antes daquela ilha de gigantes e que somente aguardariam o dia raiar, pois não covem levantar ancoras de noite, quando não se sabe a direção do vento. Por mais perdidos que eles já estavam... não poderiam ficar mais, porem se foi uma coisa que Ulisses aprendeu desde que vem tentado sem sucesso retornar de Tróia é que as coisas sempre podem ficam piores do que já estão e não é prudente agir com desleixo ante a evidência de mais perigos.
Tinha uma caverna bem no centro da ilha. Isso Ulisses tinha descoberto no dia anterior. Se perguntarem o que fez Ulisses ir até essa caverna, contra toda a prudência, isso permanece um mistério. Dizem que foi o cheiro agradável de churrasco e que os instintos mais básicos e atávicos que atraem quase que irresistivelmente os humanos na direção da carne de um churrasco. Parece que o DNA humano esta programado para não oferecer muita resistência à tentação da oferta de proteína animal.
Esse foi um dos erros mais graves do rei grego. Um erro que ele carregou o remorso até os seus últimos dias de vida na terra. Os gritos de horror ainda de seus homens sendo devorados vivos ainda hoje, quando ele já habita o conforto de seu reino, ecoam em seus ouvidos e em seus sonhos e o fazem acordar suado e ofegante e somente, com muito custo, sendo acalmado por sua esposa Penélope.
Sobre o que se sucedeu foi difícil obter dados muito precisos pois o testemunho de Ulisses e de seus comandados estavam turvados pela forte emoção, o que modernamente se chama de stress pós traumático.
No interior dessa caverna, de fato os homens do mar encontraram carne sendo queimada. Carne saborosa e uvas frescas. Uvas que eles fizeram vinho e se refestelaram esquecendo-se completamente de sua urgência em evadir daquela ilha e da ameaça ainda não manifesta que silenciosamente prometia revelar.
Esses foram alguns dos depoimentos colhidos pelos sobreviventes e que tive acesso por meio de duras, penosas e exaustivas pesquisas em alfarrábios pelos sebos do  Centro Velho da Cidade e em bibliotecas particulares de alguns amigos excêntricos que minha própria trajetória de excêntrico também me permitiu travar conhecimento. Isso se vocês considerarem excentricidade  ter verdadeira sede e fome por conhecimento e uma quase obsessiva  tendência a querer saber os muitos lados de relatos que geralmente se tem como já revelados em sua verdadeira essência.
“- Ele era monstruoso.”
“ – Não quero falar disso, nunca mais... não quero me lembrar disso...”
“-  Lembrar disso, ter visto tal horror só é superado por ter sido vitima de tal aberração.”
“- O colossal filho de Poseidon nos fez de seu banquete.”
“- Eu perdi duas pernas e a metade de meus braço esquerdo e... oh, por Jupiter e por Marte... eu estou vivo para contar.”
“ – Não sei se estou vivo mesmo... não consigo ter certeza se realmente eu escapei com vida  do monstro Polifemo ou se na verdade estou vagando no Hades, sonhando em delírio que ainda estou vivo.”
“ – Não sei porque... Ulisses disse ao monstro, quando lhe perguntou seu nome, que ele se chamava ‘Ninguém’” Acho que foi por raiva de estar vendo o ciclope devorar seus companheiros de dúzias em dúzias, ou sei lá... já não tenho certeza de mais nada.”
Ulisses nos conta, por meio do Poeta Homero, que embebedou o gigante de um olho só e quando este desmaiou ele o cegou com uma enorme lança improvisada de um tronco que havia na caverna.
Mas eu ouvi e li de outras fontes que o ciclope Polifemo na verdade caiu de bêbado em cima de uma estaca e desse modo teve seu único olho perfurado.
Também li em outros fragmentados que o filho de Poseidon conhecido como Polifemo, por estar muito embriagado, desabafou de uma frustração amorosa quando foi desprezado por uma bela ninfa e na loucura do álcool, disse que seu maior inimigo era seu olho por ter permitido que ele vislumbrasse a beleza da moça em questão e num acesso de loucura bêbeda de amor não correspondido cegou a si mesmo.  Polifemo não era o único ciclope habitando aquela ilha. Para os menos interessados nas minúcias dessas divindades mais brutais e de natureza telúrica, esclareço que os ciclopes são gigantes de aproximadamente 30 metros de altura, possuindo um olho só. Proporcionalmente, eles teriam a mesma força, vigor e velocidade de uma humano padrão se eles tivesses a estatura de humano padrão. São todos filhos de Gaia, a Mãe Terra e relembrando vocês, meus queridos, Gaia concebeu com Saturno-Cronos, O Tempo, quatro estirpes de criaturas tão poderosos quanto indômitas, a saber: Os Hecatonquiros, que são gigantes de cinquenta cabeças e cem braços; Os Gigantes, dos quais, o que merece destaque é Golias; Os Titãs, esses mais citados nos cânones dos círculos acadêmicos mais respeitáveis; e por fim, os Ciclopes, dos quais me refiro nesse relato.       
O que posso contar à partir de então, são só conjecturas. Não obtive dados, até o momento presente, da versão de Polifemo desse suposto fato. Posso adentrar no terreno da especulação elegante, se permitem que eu me utilize mais da imaginação do poeta do que da objetividade do historiador:
Os irmão de Polifemo correram até ele para acudi-lo quando ouviram seus gritos de dor e de ódio. O encontraram ferido com seu único olho perfurado por uma espécie de lança improvisada.
É importante ressaltar que seria praticamente impossível os sobreviventes do banquete de Polifemo escaparem da perseguição dos outros ciclopes, uma vez que seriam gigantes perseguindo homens comuns em campo aberto, onde a vantagem decididamente não é de quem é muito pequeno. Com os três agravantes de que os ciclopes conhecem muito bem a ilha, os marinheiros estavam em pânico e que o desejo de vingar o irmão que foi cegado e a possibilidade de ter uma variar o seu dieta , que geralmente é composta mais da iguaria  mais recorrente da ilha estariam motivando os monstros .
Só existe uma possível explicação plausível para que os outros ciclopes não terem saído em perseguição aos marinheiros. Quando indagaram quem lhe fez isso, Polifemo talvez tenha respondido “Ninguém cegou Polifemo. Ninguém Feriu Polifemo.”              
E Polifemo, um monstro de um olho só(pois só há um foco para cada instinto) e num segundo momento, cego, ferido e louco(quando nossos instintos são contrariados e fogem ao nosso controle)
E por falar em não contrariar os instintos e se harmonizar com eles, até que ponto nosso Ulisses e nosso Polifemo estão em paz entre si? Até que ponto nossas ações são o resultado de um comum acordo entre ambos ou apenas um jogo louco e esquizofrênico em que dizemos querer algo e, contraditoriamente, nos sabotamos e acabamos por fazer o oposto, ainda que possamos afirmar que “foi o destino”, “ foi culpa de fulano” ou “Deus não quis”???  
Quem nos cegou!? Quem nos feriu???
Eu sou o Velho e agradeço humildemente pela atenção dispensada.
Fim do conto.

Da série: “Histórias do Velho”.
Texto adaptado livremente por Wanderson Silva da Mitologia Greco-romana.
A pintura é do Wanderson Silva de Souza e chama-se “Polifemo”(O ciclope do mito Greco-romano).
“O Velho” é um personagem livremente inspirado em Dimas de Fonte, cujo blog “ABC Imaginário” vocês podem ver nos links desse blog.
Ps. Essa mania de transformar um amigo-irmão meu em “porta-voz” de meus textos eu peguei com o Platão que também transformava Sócrates em personagem de seus “Dialogos”. O "Velho"(Dimas de Fonte) por ele mesmo, vocês podem confiram no blog que eu indiquei acima. (E se o fizerem vão apreciar de deveras) 

Bom domingo para Todos & Todas. 


terça-feira, 25 de janeiro de 2011

VIDA REAL SHOW


Esse é um conto duplo. Um dentro do outro. Quem escreveu o conto principal fui eu mesmo, Wanderson Silva de Souza. E nesse conto tem a personagem Samanta. Ela é escritora e escreveu um conto também. E ambos se chamam “VIDA REAL SHOW”.

“Eu apenas sintetizo religião, ciência, filosofia, história. Não sou dessa religião ou qualquer outra.”(Frase de uma moça que conheci num chat)

BETÃO COMEÇA A LER O CONTO:
“Num domingo de Noite:
O marido pergunta - Esta assistindo Robocop de novo?!
- Não, é o noticiário.
- Ué, então o tiroteio realmente atingiu a prefeitura do Rio com o prefeito presente nela?
- É, né?

Numa Tarde de terça:
A filha pergunta - Esta assistindo o “Zorra Total” ou “A Praça é Nossa”?
- Não, Fernanda. Os parlamentares realmente se deram um aumento real de mais de 60 por cento.
- Puxa, parece piada.
- É – responde a mãe secamente.
- Tá, eu vou assistir o futebol lá no meu quarto e...
- Eu vou com você.
- Ué, você não gosta...
- Mudei de ideia.



Numa manha de Segunda:
- Ué, isso esta assistindo algum filme da sessão da tarde emotivo?
A mulher responde – Isso aqui é um fato real, Felipe.
- Sério?! Então essa mulher realmente se dedica à tirar crianças das drogas e do trafico???
 Felipe se senta ao lado de Marcia.
- Filha, vem ver aqui. Rápido.
- Ah, mãe, tow vendo um clipe nervoso aqui na MTV.
- É uma noticia boa.
A filha vem correndo – Porque não falou antes, pai?!
Os pai e a mãe saem para seus respectivos trabalhos e a filha vai para o quarto telefonar para o mais novo paquera dela.
E, por motivos óbvios, toda a família se sente com animo renovado. Uma mera fagulha de luz serve para iluminar uma estrada escura.
Acho que já ouvi isso em algum lugar.”
BETÃO TERMINA DE LER O CONTO.
 O editor termina de ler o conto com atenção e comenta – Bobagem, isso é sentimentalismo, o universo não perdoa os fracos e a vida é sofrimento.
- Então não vai publicar esse meu livro?
- Vou. As pessoas acreditam nessas mensagens de conforto.
- Mas você não, né?
- Não, mas elas vendem bem. E isso me conforta.
- Ah, fazer a coisa certa pelo motivo errado conta?
- Essa é uma pergunta retórica?
- Não.
- Use essa pergunta como base para seu próximo livro, Samanta.
- Tá, certo. Você é um canalha, Betão.
Betão gargalha com gosto. Samanta e Betão tem intimidade suficiente entre eles para se referirem assim sem ser em tom de agressividade.
E Samanta pondera - Mas um canalha que publica meus livros.
- Vai passear um pouco com o Lenon, Marcia, amanha eu te falo o que achei dos outros contos.
- Tá bom, Betão. Beijos.
- Beijos.
Samanta não se deu conta de que Betão a chamou de Marcia.
Quando Betão desliga o Messenger. Ele pega de um livro que esta na sua cabeceira e começa a ler do ponto onde havia parado. No jornal da TV, uma senhora é resgatada com vida dos escombros e ele, ao ver tal fato, derrama uma lagrima discreta.
O livro que ele lê chama-se “O Pensamento Vivo de Maquiavel”.
“Quem quiser fazer profissão de bondade, não poderá evitar sua ruína dentre tantos que são maus.”(Nicollo Maquiavelle)
Mais, segundo acredita esse que vos escreve, alguns anjos estão disfarçados em meio aos caos do duro concreto para dar cobertura aos sonhadores para que estes últimos possam se expressar. Tão disfarçados que nem mesmo eles se dão conta. Aliás, o significado etnológico mais antigo do termo anjo(em grego) quer dizer mensageiro, senão me falha a memória.

Betão se levanta da sua cadeira e vai até a cozinha. Ele passa por uma porta espelhada e se mira.
Parado, olhando-se. Parado, espantando-se.
Ele se olha e se diz – Betão, você só pensa em lucro.
Quer ficar amargurado mas endurece o coração e se motiva – O dinheiro move o mundo, Betão. Você não tem essa casa de luxo e segurança num condomínio do Meier por ter sido bonzinho e ter vivido de sonhos.
Sorri e acende um incenso. Incenso, Betão?! Isso parece coisa de “artista-pensador-sensivelzinho”.(Uma ironia que parece querer criar um estereotipo de que quem usa incenso é necessariamente adepto desse ou daquele tipo de pensamento)  
Repete para si mesmo – Quem quiser fazer profissão de bondade, não poderá evitar sua ruína entre tantos que são maus.
Ele já foi sonhador, hoje ele edita livros de sonhadores. Livros que são escritos para leitores que precisam ter coragem para se tornarem sonhadores.
E, na TV: Um gay é espancado na rua por jovens homofóbicos. Essa agressão e produto do pensamento arcaico de seres humanos toscos.
Na TV: Uma mulher balzaquiana, insiste em se dedicar ao teatro, escrevendo, dirigindo e produzindo suas peças à despeito da desmotivação de sua irmã e de seu marido. Contando com a gratidão de seus jovens alunos e de suas amigas. Essa insistência dessa mulher de classe pobre da zona oeste é produto do pensamento nobre de seres humanos valentes.
A intolerância e a Perseverança. A sempre constante dança entre luz e trevas, o avançar  da Humanidade à cada momento em que ela transgride por AMOR e o recuar dessa mesma Humanidade à cada momento em que ela preserva a Tradição apenas para justificar a perpetuação de seu ódio por qualquer comportamento que ela não compreende e por isso teme.
Na TV: Mad Max passa de novo. Não, não. Não é a reprise dessa famosa trilogia da década de oitenta. É a matança da semana. Pior ainda, já que é vida real.
E na TV: Os Superamigos salvam mais uma vez o dia. Não, é apenas o Afroregae resgatando as esperanças de crianças e adolescentes nas favelas do Rio de Janeiro. Tanto melhor, pois é bom saber que tem super homens e mulheres maravilhas, de carne e osso e sem uniformes coloridos, trabalhando com ações afirmativas de arte e política em favor do semelhante.
É ficção ou realidade?
Parece pesadelo, mas existem supervilões na vida real.
Parece sonho, mais existem superheróis na vida real.           
E o que o editor Betão é então? Ah, ele é um daqueles Super Herois disfarçados, tipo o Mordomo Alfred, que da cobertura para a princesa guerreira Samanta publicar seus livros. Livros que falam de gente comum para gente comum ler. Betão se deu bem na vida. Mas não se enganem, os heróis não vivem só em farrapos e mulambos. Essa crença ainda é fruto do mito da “pobreza que santifica”. Será mesmo que classe social pode falar à favor ou contra o caráter de alguém?! Ou orientação sexual, ou credo?! Ou Será que são as ações que falam mais do que vai no coração das pessoas?! Muito mais do que sua conta bancaria, belas palavras ou quantidade de mantras, padre-nossos e frases de “O Capital” decoradas???   
Ah, e tem mais uma coisa: Sonhadores são pessoas comuns que sonham. Os sonhos são os que nos tornam heróis ou vilões, dependo do que se sonha para a vida ou dos recursos de que se utiliza para se alcançar esses sonhos, pois eu não corroboro a ideia de que os fins justificam os meios, como afirmava Maquiavel.
Betão pensa no que Samanta lhe falou – A coisa certa pelos motivos errados.
Samanta passeando com seu cachorro Lenon – Desde que ele continue editando meus livros, né, Lenon? Afinal, se uma pessoa se sentir motivada ao ler meus livros, já é bastante para mim. Esse é o meu sonho, Lenon. Ah, acho que vou escrever mais um conto sobre a Marcia. Dessa vez dela passeando com seu cachorro. Mas me inspirar sempre me dá fome. Vamos antes na padaria, Lenon.
O cão arfa de contente e abana o rabo.
Advinha?! Quero ver se ainda tem sonho, Lenon.
   
  Castelos de areia
Disfarces, mascaras, personas
Foto primeira tirada por Dimas com Wan como medelo.
Foto segunda tirada por Wan, da escultura do artista de rua Xavier.
Castelos de areia?!
Mas... afinal, não é a vida e tudo apenas um imenso castelo de areia???
Não são a tristeza e a alegria, a vilania e o heroísmo apenas  conceitos que mudam conforme o vento das culturas e dos costumes?
Os realistas que me desculpem, mas "o mundo é 'bão', Sebastião".


Assina essa viagem onírica: Wanderson "Poliana-com-pé-no-chão" Silva de Souza. 

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

UM CONTO DE DENTISTAS

Ontem mesmo eu me lembrei de ligar para ele. Mas não tive coragem.

Coragem, eu acho é coisa que surge de repente. E vai embora rápido. Preciso sempre aproveitar o momento em que a coragem esta em mim. Não, acho que isso é coisa só minha.
Ou eu posso, na verdade, chamar isso de impulso?!
Não importa. Ao menos um dia eu tive coragem. E falei. Quer dizer... comecei a falar.
Ele sentou-se na cadeira ao meu lado para ter uma conversa particular comigo. Eu pensei que era para ser o que eu esperava e queria ouvir dele.
Ele chegou de mansinho, sorrindo.
Ah, aquele rosto moreno, cheio de vida e de esperanças revividas.
Fez de mim sua confidente e nada mais. Como nada mais?! Isso é algo muito importante.
Mas... eu queria mais, muito mais.
Agora estou aqui, sentada na cadeira. Escrevendo essas palavras que ninguém mais vai ler.
Acho que nem eu. Nem eu vou ler.


Os anos passam na vida dela. Anos que passam num instante. Ela nem sente o tempo passar. Tem vezes que ela acha que o tempo não existe. Mas isso é bobagem, os relógios estão presentes para atestar a existência do tempo.
Não consegue dormir e por isso resolve fazer algo de útil já que ficar rolando na cama lhe parece uma estupidez. Se levanta e começa a mexer em sua gaveta. Abre e vê um DVD que esta sem título, ela o pega e liga o computador.
O conteúdo é uma antiga escrita que ela produziu para ninguém ler, nem mesmo ela e que agora ela estava lendo. Começa com “Ontem mesmo eu me lembrei de ligar para ele.” E termina com “Nem eu vou ler.”
- Espere – fala para si mesma – quem era esse homem? De quem eu estava falando mesmo?!
Acaba adormecendo em cima do teclado e no dia seguinte acorda, atrasada e sai rapidamente, engolindo uma xícara de café e comendo biscoitos pela rua. Apressada ela pega o ônibus.

Chega no trabalho e chateada e distraída esbarra ruidosamente numa senhora. As compras dessa senhora caem todas no chão. Ela é xingada de todas maneiras absurdas e se dirige ao elevador mais irritada ainda.

Chega no seu andar. E quando vai entrar na sala onde ela é dentista, ela vê um de seus pacientes discutindo cheio de raiva com a sua secretária.
Vê outros pacientes olhando para ela com expressão impaciente.
Sem se deixar abalar ela se dirige para o consultório e comunica a secretária que mande entrar o primeiro paciente.
A secretária avisa que o primeiro paciente se cansou de esperar. Entra então o homem que estava discutindo com a secretária.

- Não vai doer não, Né, doutora?
- Não. Tenha confiança...
- “Tenha confiança em mim?!”
- Ahmm...
- Estou reconhecendo essa voz. Você quase mudou muito. Cabelos curtos e grisalhos.
Amanda fica irritada ao ser mencionado os seus fios grisalhos. Mas afinal porque ela insistir em não dar mais atenção à sua aparência, já que ela se ressente tanto quando mencionam esses pontos que para ela são dificeis de encarar de frente. Amanda é Impulsiva talvez devido à sua insegurança. 
- Não estou reconhecendo...
- Esqueceu?! Do curso de Odontologia?
- Seu nome... é...
- Ma...
- Ah, Mario Marcio.
Mario Marcio franziu a testa. Ele não gosta de ser chamado pelos seus dois nome composto.
-E... sou eu.
Ele continua moreno e com alguma esperança.
E a Milena?!
- Nos separamos. Tivemos um filho. Ele agora esta estudando em Brasília - declara isso sorrindo de mansinho.
-Eu até perdi a conta das vezes em que me casei.
- Você era tão timida.
- É, mas... meus ex-maridos não. Isso ajuda um pouco, não acha?
- Eu era o seu confidente.
Amanda não esboça nenhuma reação ao que ele acaba de dizer.
Mario Marcio sorri meio sem jeito.
Amanda pisca para ele.
Ele passa as mãos pelo cabelo.
- Não esta com medo, esta?
- Medo?!
- É.
Mario Marcio fica parado um tempo, como que a processar a informação.
- Ahhh, mas é evidente que sim. Sabe que até nós dentistas temos medo de ir ao dentista.
- É sim. Você ainda trabalha como dentista?
- Sim - Mario Marcio passa as mãos em seus cabelos e tenta enxugar o súbito suor que desce de seu rosto.
Amanda pega um lenço de papel e passa na testa dele de modo suave e comenta - Estou sem dentista...

Mario Marcio a interrompe, como que a saber o que vai falar e responde de modo entusiasmado – - - Eu cuido de você e você cuida de mim.
- Você ficou bem de rabo de cavalo.
- E você esta bem mais magra.
- Mentiroso.
- O brinco é que eu acho que vou tirar. Não tenho mais idade para isso.
- idade...
- É... O que ia dizer mesmo? “Idade...” Complete a frase.
- Você disse que vai fazer a revisão em meus dentes.
- Foi isso que eu disse. Cuidadmos um do outro. O que ia dizer sobre idade?
- Tem algum grilo com idade, bicho - pergunta Amanda sorrindo e piscando para ele.
- O tempo não foi generoso comigo assim como foi com você.
- Ah, para, vai.
 - É sério. Você ficou mais bonita ainda.

De um instante para outro parece que recuperaram algo que no entanto nunca existiu. Pelo menos não da forma que agora se apresenta. É a mesma relação e com algo mais, uma atualização de uma potência que sempre existiu na relação deles.  
- Nunca disse que eu era bonita.
- Eu?!
- É!
- Nunca disse isso...?
- É!!!
- E precisava dizer?!
- Precisava.
- Mulheres. Quem entende vocês? Eramos confidentes e mesmo assim...
- Mesmo assim o quê?
- Você nunca me deu bola na faculdade, Amanda. Eramos só confidentes.
Amanda subitamente fica séria- Abre a boca. Bem grandão.
- Nem parece que o tempo passou tão rápido.
- Tempo não existe – falam os dois ao mesmo tempo.

Amanda sorri e Mario Marcos abre a boca. Na madrugada de ontem para hoje, ela leu o que escreveu para ele e jamais chegou a enviar.

Um Conto de Dentistas de Wanderson Silva de Souza.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Moça do Tempo

A Moça do Tempo,
esta gravida
anuncia tempestade no quadrante leste
e terremotos na ala norte.

não vejo, só olho as previsões da Moça do Tempo
Vejo sim a barriga de gestante dela.
Olho porque é vida que se anuncia.
Tomo conhecimento da vida

E porque tomo conhecimento da Vida
Volto meus olhos para a tempestade.
Não por amar a tempestade
E sim por cuidado para com as VIDAS

Assinado: Wanderson Silva de Souza

João da Silva

Falece João da Silva. Cai por entre as panelas na turbulência festiva da festa. Os garçons são convocados com urgência para levar dali o corpo.

Todos os salgadinhos e docinhos são comprometidos. Muitos dos serviçais da cozinha são feridos gravemente. Alguns chegam a ter queimaduras de terceiro grau. Quando o morto tombou inerte no chão levou consigo muitas panelas, frigideiras e no processo queimou boa parte dos serviçais.
Agora tudo será uma questão de improviso.
A dona precisou usar de toda sua serenidade e sangue frio para impedir que os serviçais entrassem em pânico e paralelamente contornar os convidados.
Um rápido telefonema é dado para o Sr. Alves Sobrinho, o mais emblemático relações publicas que o mundo das festas teve conhecimento.
Dona Alzira já estava presente na cozinha. Por sorte, muita sorte mesmo, ela estava trabalhando numa festa a poucos quarteirões dali e não foi difícil para a Dona convencer a doceira a desertar de uma cozinha para outra. Alguns reais tem um poder de convencimento sem par. É preciso ressaltar que a promessa feita para Dona Alzira de que ela assumiria o lugar de doceira chefe foi crucial para ela chegar em questão de minutos no bairro do Méier. Ela não estava muito longe. Estava em Copacabana e essa distância é insignificante quando se trata desse tipo de emergência.
O lap top e uma conexão móvel realizou a tarefa de conectar a salgadeira Marli a cozinha da festa. Não foi muito difícil para ela acordar as quatro da manha. Bastou uma água no rosto e uma boa xícara de café requentado. Por meio da web a salgadeira Marli passou as instruções para a cozinha da festa.
E quanto aos convidados?!
Uma solução providencial foi apresentada pelo criativo Sr. Alves Sobrinho. Um grupo de pagode chegou com a velocidade de um raio e trouxe churrascos de uma barriquinha e realizou gincanas para animar os convidados. A combinação da tríade pagode-churrasco-gincana foi providencial para conter os convidados e distraí-los do hiato de quase vinte e cinco de minutos em ser servida uma só travessa de salgadinho e docinho.
As bebidas foram quase todas atingidas no acidente. E o pouco que sobrou foi adicionado à água para render mais. A Dona pensou em providenciar mais bebidas, mas notou que os convidados a certa altura não notavam a significativa queda de qualidade na bebida. As crianças ficaram sem refrigerante. Mas elas estavam se divertindo tanto com as brincadeiras e os adultos estavam surdos aos apelos delas. Algumas pediam mais refrigerante, mas não eram ouvidas. Os adultos queriam se divertir na festa. No cotidiano eles também não ouvem os pedidos delas pois tem problemas muitos sérios com os quais se ocupar tais como essas coisas de adultos: Fazer mais crianças e fazer mais dinheiro para sustenta-las destacam-se entre as principais atividades dos adultos.



Apesar do incidente causado pelo falecimento do serviçal João da Silva, tudo deu certo.

Autor: Wanderson Silva de Souza

MARCELA

Chegou tarde em casa.

Olhou por entre os lábios de suas ideias. Suas ideias são lábios que devoram toda informação de sua mente e as expulsam de modo atabalhoado.
Todos dormem no chão. Parou e pensou.
O mundo parecia se esvaziar lá fora. Um mundo escuro, silencioso, com feras na espreita.
Aqui dentro é quente e abafado.
Abre a janela e sente o frio da manha entrar pela sala. Todos dormem.
Pega da garrafa térmica e bebe café frio. A maquiagem de trabalho ainda esta um pouco em seus lábios. Vontade de acordar alguém e falar muito, muito e muito.
Animação de festa cansa. Mas não um corpo jovem. É o que tenta pensar para iludir seu corpo de que ainda tem forças para ganhar as ruas mais uma vez.
Despedaça um pedaço de pão com os dentes e sai porta fora comendo uma banana prata e a lua prateada ainda teima em espiar lá de cima.

Voltou para a rua.
Menos de uma hora depois, a mesma rua não era mais escura e silenciosa. Vê uma mulher bem vestida falando ao celular e se equilibrando pela linha do trem com seu salto alto. Essa mulher é assistente social e tem dois empregos: Vendedora em loja de shopping e faz salgados, em casa, para festas. Só não conseguiu ainda trabalhar como assistente social.
Lembra-se das crianças com a qual trabalhara faz poucas horas atrás. Tinham em torno de quatro anos e fôlego infinito.

Senta-se no meio fio da calçada. Só o despachante esta lá. Chega um garoto bem grande e de pouca idade.
- Esta indo para a pizzaria?
- Não, agora eu trabalho numa firma de informática.
- Concertando computador?
- Não, pegando eles na casa dos fregueses, levando para a firma e depois levando de volta.
- Isso é trabalho para mulher?
- Menino, qualquer trabalho é trabalho para quem precisa de trabalho.
- Ah, tá, to ligado.

SILÊNCIO

Ficam olhando para o mundo frio e estranho.
Vento e a claridade do sol que vai aos poucos chegando.

Um cachorro para diante deles e começa a olha-los.
O cachorro rosna e a mulher retruca – Ah, não enche.
O cão para de rosnar. Deita-se e fica quieto. Talvez esteja mais cansado do que ela.
A jovem olha para o céu e vê urubus voando em formações ridículas e ensaiadas. Sente comoção pelo cão, volta seu olhar para ele e estende-lhe as mãos. O cão se aproxima e ela faz-lhe carinho.

O garoto olha para a mulher jovem e encontra um jeito de quebrar o SILÊNCIO.
- Tem jeito com cachorro.
- É, tenho.

Os dois deixam o assunto morrer de novo. Uns segundos se passam. O garoto olha para o outro lado. O cachorro se deita ao lado dos dois calado. O garoto olha de novo para a mulher e fica sem graça quando esta o encara. Ela sorri e o garoto indaga - Vai fazer aquelas brincadeiras esse ano com a gente?
- Porque quer saber?! Você tinha dito que não é mais criança.
- Aquilo foi porque tava na frente da turma, não queria ser zoado.
-Humm, táaaa - faz expressão de enfado - Não sei se vou fazer esse ano de novo.
- Você faz isso de trabalho, né?
- Não vou fazer mais não. É chato.
- Ué, você gosta de criança.
- Gosto, mas animação cansa muito.

Chega uma Kombi.
- Olha, vou pegar essa van, acho que meu ônibus teve algum problema. Fica na boa, Juninho – diz isso e se levanta fazendo sinal para a van.
- Acho que vou experimentar um baseado essa semana.
- Porque – pergunta assombrada a jovem.
- Ah - o garoto dá de ombros e retruca com ar brasê - Geral fazzz.

Marcela fica parada ali. O cara da van pergunta se ela vai subir.
Ela faz que vai se sentar de novo e indecisa pergunta ao despachante - Eí, o ônibus não vem? Esta muito atrasado, o horário dele é cinco e já são quase cinco e meia.
O despachante responde com impaciência – Não sei não. Estava acontecendo uma confusão, uns carros sendo queimados... ouvi no radio.
- Onde?!
O despachante não responde.
A jovem olha para o garoto.
O cara da van pergunta de novo se ela vai entrar.
- Pode ir, vou esperar o ônibus.
- E aí, Juninho, mó saco a lavada que o Flamengo tomou nesse sábado.
- Ih, podis crer.

Ficam conversando no meio fio da calçada e quem acredita que essa moça não vai mais trabalhar com crianças é porque não compreende as contradições da natureza humana.

Assinado: Wanderson Silva de Souza

Multitude

Andava perdida em seus pensamentos. O TEMPO tinha se esquecido dela. Olhava tudo a sua volta e via homens de ternos pretos circularem indiferentes. Homens com suas pastas executivas, celulares e óculos escuros. Não sentia vida nesse mundo. Tudo era desamor e sentia vontade de gritar para todos que o mundo precisava ser salvo.



Um dia, quando o TEMPO JÁ TINHA RETORNADO DE SEU ESPAÇO INFINITO, Carla se olhou no espelho e ajeitou seu vestido. Correu para o lap top e verificou que a planilha já estava anexada. Clicou em enviar. A portaria do hotel ligou avisando que o seu taxi já tinha chegado. Colocou seu óculos escuros e desceu apressada e indiferente pelo elevador. Entrou no taxi indiferente, com seu terninho cinza, seus óculos escuros. Depositou sua pasta executiva em seu colo e ligou seu celular.


As fotos de Reginha ainda estavam um pouco nítidas. Sua melhor amiga com quem cumpunha sambas fortes e vigorosos. Suas dores de pobre e pessoa sensível ainda produziam sambas. Só que eram sambas desiludidos e natimortos que ainda na alma de Carla sabiam que iam direto para algum Hd Hipo Codic, o Mestre dos Dados que agora era a novidade mais quente da Grande Rede de Informações Quânticas.
Para Carla, o Hd Hipo Codic serve como a gaveta dos anos 80 do século Vinte.


Carla se viu uma empresaria que podia mover o mundo e surfar pelas possibilidades pré-estabelecidas.


Carla é também uma mulher que bebe vinhos falsos, sonha com a volta da menina que antes perdia-se em seus pensamentos.

A empresaria não. A diretora de MARKETING Carla era feliz. As vezes, quando o sexo era bom demais e dava vontade amar aquele estranho da vez para além de seu corpo e mente, ela se sentava de camisola na varanda de seu apartamento, em frente ao mar e compunha boa obras com poesia que valiam a pena e pareceriam legitimar sua existência no mundo. Aí tinha medo: “Sou sensível ainda!” Temia voltar a ser aquela menina que andava perdida em pensamentos. Sentia pavor daquela que olhava tudo a sua volta, exilada do TEMPO e que sabia que o mundo precisava ser salvo. Então ligava para seu número de salvação: O cara que lhe trazia secretamente “esquecimento” para ela se desligar do mundo. E Carla só consegue amar alguém até o ponto de uma boa conversa sobre Modernidade e Antropologia Evolutiva num Café Literário da Moda e dos gemidos subsequentes que davam fim a mais um encontro com um perfeito cavalheiro.


A vida de Carla, uma mulher anacrônica, ainda figura fácil de eventos góticos, rituais de bruxaria Wicca diante da fogueira em alguma cidade-sonho na região serrana, era sempre a mesma felicidade parada e revolucionário-espiritualista enquanto intencionalidade.


A vida de Carla, essa executiva que decide qual sambista biscoito fino era o artista da moda das cabeças pensantes, era sempre a mesma felicidade agitada e de uma riqueza reflexiva-filosofica enquanto artigos e convites para eventos da elite clássica artística que quer pensar um Brasil novo mais justo.

A garota que anda perdida em seus pensamentos QUER e VAI mudar o mundo.
Quisera uma dessas Carlas futuras avisar essa menina que ela será uma delas:
Ou a bem sucedida que finge ser uma pensadora.
Ou a pensadora que finge ser bem sucedida.
Enquanto essa menina estiver perdida em seus pensamentos, nenhuma dessas Carlas... nenhum de seus possíveis futuros sombrios irá atingi-la com seus espinhos disfarçados de “visão realista da vida”.

Essa menina não correrá o risco de ser pensadora ou bem sucedida enquanto estiver perdida em seus pensamentos. Sua força esta no pensamento que ainda não se formou e no sucesso que ainda não se materializou.
Enquanto Carla estiver perdida, inacabada e em construção, ela estará salva de ser uma Carla morta em vida pelas suas ações vitoriosas ou uma Carla datada e saudosa tentando atualizar seu futuro idealizado do passado por meio de seus pensamentos feitos de teimosia amarga e soberba.

Andava perdida em seus pensamentos e esbarrou em Regininha.
- Regininha.
- Carla, esta no mundo da lua, como sempre.
Carla ri e volta a pensar. Mas pensar em quê?
Regininha passa as mãos em seus cabelos – O produto que você me emprestou não prestou pra nada. Prefiro o meu condicionador mesmo.
Carla muda de assunto - Eu acho que vou viajar com o pessoal lá da Terra Mística.
A “Terra Mística” é um conhecido espaço de eventos musicais geralmente voltados para o universo gótico e outras tribos amigas tais como punks, nerds, skatistas. Acontecem lá também muitos eventos voltados para o universo das Histórias em Quadrinhos.
- Você já pensou no que vai falar lá na sua casa?
- Minha irmã vai comigo. Por isso minha mãe vai deixar.
- Puxa, isso não é legal.
-É, eu sei – um silêncio se faz presente de modo ensurdecedor, quando pombos voam de modo escandaloso acima da cabeça delas.
Carla tenta motivar a amiga – Não pense que dessa vez ela vai atrair a atenção de todos os carinhas da Terra Mística. Das primeiras vezes ela fez sucesso só porque era novidade.
- Sei, sei - responde Regininha sem acreditar muito.
- E aquele jeito hiponga dela não cola...
- Você que pensa. Ela lê carta, tá? Essas coisas esotericas faz sucesso com o pessoal.
- É, mas sem ela, minha mãe não libera. Já foi difícil ela deixar mesmo indo a Silvia. Meu pai é que deu uma força para convencê-la.
- Tá, tá...


Carla chega numa casa de pedras. Um lugar com muito estilo. Uma mulher vestida elegantemente de preto espera na entrada da varanda. Carla estaciona o carro e olha para a irmã.
- Silvia, onde esta...?
- Mamãe esta bem - tranquiliza a irmã.
- Bem...?! Eu duvido! Para você me chamar, ela só pode estar muito doente - Carla se acostumou a esperar o pior para não se decepcionar depois com os resultados.
- Veja por você mesma, Carla.
Carla se aproxima da sala. A sala esta em penumbra. Velas coloridas iluminam uma mesa. Sua mãe, uma senhora de aproximadamente setenta anos, esta sentada a mesa com um senhor aparentando ter mais ou menos a mesma idade que ela.
- Carlinha, meu anjo  a mãe a recebe com um sorriso radiante. 
O velho senhor se levanta e sorri de modo generoso. A sala parece transbordar alegria e vida.
- Esse é o Dante. Dante, essa é a Carlinha.
Carla olha de cima à baixo o homem de estatura mediana, porte ereto e elegante, camisa polo, calça jeans e tênis. Ele se veste com classe e ao mesmo tempo sem muita formalidade.
Na mesa, ornamentada com pequenas estatuas de gnomos, com uma toalha branca, um pequeno vaso de planta, um incenso, uma vela e um copo com algua. E todos esses quatro elementos circundando um jogo de Tarot aberto.
Silvia passa os braços pelo ombro de Carla e fala com entusiasmo - Dante foi meu professor de clarinete.
A mãe fala – Ele se revelou um grande amigo. Silvia e ele descobriram que tem em comum o gosto pelo Tarot.
Carla sorri tentando disfarçar o misto de enfado e desaprovação.
A reunião prossegue a tarde inteira com vinho chileno de ótima safra. Todos estão mais descontraídos. E é nesse momento que a mãe, cujo nome é Madalena, tenta falar algo mais serio, porem Carla interrompe.
- Tenho que ir, mãe.
- Você tem é que ir para o seu quarto – e prossegue de modo terno, ainda que firme - Ficou louca se acha que vou deixa-la dirigir depois de duas garrafas e meia de vinho.
- Eu chamo um taxi – Silvia da um pequeno cutucão em Carla.
Carla abaixa a cabeça, coloca as mãos na testa, respira fundo e levanta de novo a cabeça se esforçando para sorri – Esta certo, meninas. Sou voto vencido, duas contra uma.
Carla não consegue disfarçar o desconforto diante de Dante. No dia seguinte, Carla conseguiu sair o mais cedo possível para não ter que se despedir pessoalmente de todos. Dexou apenas um bilhete em cima da mesa. 
Dirigindo o carro, Carla pensa e não se da conta de quê na verdade ela tem inveja da mãe dela.
Madalena encontrou um novo amor numa fase em que geralmente se espera que as pessoas estejam aposentadas da vida. O pai dela quando morreu faz tempo e Carla não imaginava que a mãe dela, que sempre foi tão retraida e acomodada, iria embarcar numa nova relação amorosa. E agora, Madalena, sua mãe, conhece esse amigo da filha. Dante é um homem fascinante, ela tem que admitir. É advogado, já foi pastor evangélico, porém largou o sacerdócio devido a uma crise existencial que acabou motivando-o a cursar Filosofia e a estudar Holistica e retornar à sua antiga paixão: A música.
Esse retorno à música fez com que ele conhece Silvia e esta o apresentou a sua mãe, a Madalena.
Madalena acabou por convidar Dante a participar com ela de aulas de Yoga num clube do bairro e a aproximação foi inevitável quando tiveram chaces de perceber as afnidades que eles tinham entre si.
Sua mãe se revelou um ser capaz de amar. Carla porém, aos quarenta e cinco anos, se sente tão distante de uma relação desse tipo. Sua vida sexual seja ativa sim. Amor, porém passa bem distante de suas prioridades.  
A felicidade da mãe atingiu Carla como um tijolo em sua cabeça.

Em seu apartamento pequeno e abafado de Copacabana, a hiponga anacrônica Carla se lembra do dia da viagem com os góticos para a pousada chamada "Terra Mística". Suas lembraças se misturam entre suas letras de música que ela cria. Mùsicas que ela um dia espera serem reconhecidas anos no fututo, após sua morte. Foi assim com os grandes gênios sensíveis. Eles nunca foram reconhecidos em vida.
No dia da viagem todos estão se preparando para pegar o ônibus. Carla chega com Silvia.
Andaram a cavalo. Foram ao rio. Visitaram lugares perdidos no tempo. E na noite anterior ao dia da partida, Silvia estava deitada sorridente, como sempre costuma ser. Carla chega no alojamento.
- Carlinha, esta chateada comigo?
- Viu isso no Tarot?!
- Ahá, você debocha disso, eu sei. Olha, sou sua irmã. Eu te conheço.
- Não estou chateada não, Silvia.

Carla olha a foto de Regininha e se lembra de muitas décadas atrás, quando ela viajou com sua irmã e...
Carla é uma pensadora. Ela agora pensa que tudo que ela se tornou até aquele momento foi fruto de suas escolhas e uma delas foi ter sido sincera e ter respondido para sua irmã a verdade de seu coração. Em que ponto ela começou a vomitar as verdades de seu coração e começou a magoar, espantar, irritar todas as pessoas de sua vida?! Teria sido nesse dia? Nessa viagem com para a pousada Terra Mistica?

SERÁ QUE SE ELA GUARDASSE PARA SI SUAS VERDADES, TERIA SIDO MAIS BEM SUCEDIDA?!



No carro, Carla pensa se ela teria se tornado uma bem sucedida empresaria do ramo da música se ele não tivesse desde cedo a guardar consigo mesma seus pensamentos e pontos de vista e a apenas dar opiniões que fossem convenientes.

SERÁ QUE SE ELA TENTASSE CONTROLAR MENOS AS SITUAÇÕES, SUA ALMA ESTARIA ENGESSADA DO JEITO QUE ESTA AGORA???QUALQUER UMA DAS CARLAS POSSIVEIS ESTA NA CARLA. NA VERDADE, EXISTEM MUITAS CARLAS NA CARLA. E TODAS AS CARLAS SÃO VERDADE. MUITAS VERDADES NA CARLA. E TODAS AS VERDADES SÃO CARLA.




Carla são muitas. Não só duas. Existe uma Carla que sequer chegou a idade adulta. Se perdeu no meio da caminho em meio a violência da juventide num mundo ainda primitivo que não respeita a vida e seus jovens. Existe uma Carla feliz e que conseguiu conciliar suas multiplas facetas, ou ao menos pensa ter conseguido. Existe uma Carla que tenta ainda. Outra que transforma em ensaios, contos, crônicas, romances e peças de teatro, todas as suas inquitações e reflexões. Existe até uma Carla que se tornou uma pretensa bruxa e dá consultas junto com sua irmã. A multitude contempla também Carlas casadas, satisfeitas, iludidas, com muitos casamentos desfeitos e outras fazendo bodas de prata.  E nessa multitude, nos perdemos em pensamentos e quem sabe... perdidos, as Carlas e NÓS, o amor nos encontre?! Madalena não procurou e nem Dante procurou e o amor os encontrou. O amor encontrará essas Carlas que existem em cada um de nós quando estivermos PERDIDAS em pensamentos porque o Amor são pensamentos que vagam perdidos para unir as pessoas que se perderam desses pensamentos.

Assinado: Wanderson Silva de Souza.

sábado, 26 de junho de 2010

Cochilando no trem, sonhei com Zumbi dos Palmares

Um homem entra em vindo do outro vagão. Ele é idoso, negro. Veste um terno gasto e tem uma Bíblia na mão. O calor absurdo deixa-nos todos em estado de paralisia, como se tudo andasse em câmera lenta.

O som abafado do trem se deslocando. A visão turva devido aos pingos de suor que descem pelo meu rosto e deixa tudo muito estranho e ao mesmo tempo familiar. Cheiro de churrasco misturado com perfume forte. De onde poderia estar vindo um cheio de churrasco num trem em movimento. Não importa, não duvido de mais nada, depois de tantos anos viajando de trem.
Mas... esse homem idoso atravessa a porta que separa o meu vagão do outro em ritmo lento. E eu também absorvo os estímulos externos em ritmo lento. O calor deixou-me murcho e lento. E minha percepção turbada.
O velho homem começa a pregar no trem. Ninguém liga e parece que nem ele liga também. Ele prega mecanicamente. Aliás toda a população tem estado meio mecânica, lenta, turbada muito provavelmente devido ao calor.
Percebo um homem ao meu lado que puxa assunto comigo.
Tudo isso não passou de um sonho. De qualquer forma a diferença entre realidade e imaginação tem menos importância do que costumamos dar.

- Preto Velho?!

- Não e sim.
- Esse homem é idoso e negro. É um preto velho.
Instante em que os dois homens se encaram.
O homem forte volta a falar.
- Ou é uma coisa ou não é.
- É...
- Existe alguma dúvida de que esse homem é um preto velho?
- Ele é um homem religioso.
- E não tem dúvida então. Na guerra não podemos ter intenção fraca.
- É.
Fala isso sem meio constrangido.
- Não estamos em guerra estamos?!
- Bem...
- Esse homem veste terno. Esta certo que é um terno gasto, mas é um terno!

Silêncio. Eles olham o homem andar com um livro preto na mão.
- Ou esse preto velho é um escravo alforriado ou não existe mais escravidão no Brasil.
- É que esse homem é um religioso que prega na rua.
- O Candomblé agora não é crime?!
- Ele não é do Candomblé. Ele usa terno porque é o costume da religião dele. Ele é velho e preto. Mas não é uma entidade, e nem de longe lembra os pretos velhos de seu tempo.
- Você falou que a guerra acabou. Confirmou sem convicção.
- Você fala como alguém do meu tempo presente e não do passado.
- Eu posso falar do jeito que bem entender. Sou de todos os tempos em que existe opressão ao negro. E falo de acordo com cada tempo.
-É, na verdade, o negro hoje fala muitas línguas.
- Muitos dialetos???
- É que não existe O Movimento Negro. Existem os movimentos negros. São muitos que reivindicam e divergem em como e em o quê reivindicar.
- Você fugiu da minha pergunta. Responda se estamos em guerra.
- Depende do que considere guerra.
- Sou um homem de ação e confio em meu próprio testemunho dos fatos.
- Não confia em ninguém.
- Confio em Olulum. E na força de meu braço, na coragem de meu coração e na esperteza de meu raciocínio. Para todas as adversidades, um homem deve contar somente com a fé em seus deuses, em seu coração, sua força e sua mente.
- E nos aliados?!
- Não. Eu já fui traído.
- Eu sei disso. Li os livros de his...
- Você não sabe de nada!
- Mas eu...
- Você?! Você não sabe de nada!!! Eu já fui traído muitas vezes. Infinitos Antonios Soares a trair o Espírito da Liberdade em nome de uma paz conformista. “Paz sem voz não é paz, é medo.”
- Essa é uma frase de uma música.
- Essa frase é minha pois veio de meu espírito.
- Como assim...?
- Toda vez que a liberdade é invocada, eis o Espírito: Zumbi.
- É... parece tão fácil, mas na pratica...
- Sou homem de ação. Quero ver esses movimentos negros de perto. Eu sou cada um deles. Em cada um deles existe um Zumbi. E cada Movimento Negro, em sua particularidade expressa o Espírito de Liberdade que evoca os ancestrais da Terra Antiga: África.
- Estamos tão longe da África.
- A África esta em nós, homem.
- Em nosso sangue.
- Nas palavras dos muitos dialetos. Nas provações de vencer na vida, no emprego, no trem lotado e na chibata que o trabalhador ainda recebe das forças de opressão. Na coragem em se fazer do jeito seu mesmo.
- Do seu jeito?
- Não há um jeito de ser negro. Cada negro constrói com suas vivências o que é ser negro e ninguém pode acusa-lo de ser menos negro só porque ele não é de Candomblé, não samba ou não joga futebol. O Ser negro esta no espírito. E isso não se coloca regras e nem definições.
- Puxa...
- Vamos. Leve-me até esses que você chama de Movimentos Negros.
- Humm... pelo que falou parece que você conhece muito bem esses movimentos.
- Mas eles me conhecem?!
- Bem... Não. Eles não conhecem.
- Há, verá que erra em dizer isso. Eles me conhecem SIM. E você também me conhece. Só que você ainda não percebeu isso.
- Diz isso pelo fato de eu não ser militante de nenhum movimento negro.
- Rapaz, cada negro é um movimento negro mesmo que ele não perceba, tais são as lutas que ele tem que travar em toda a sua existência.
- Não sei o que dizer. Estou confuso. Você parece dizer uma coisa e depois parece que diz o contrário.
- Sua confusão vai diminuir quando fomos até aos nossos irmãos dos movimentos para conversarmos.
- Ou ainda piorar. E você disse que na guerra não podemos ter intenção fraca...
- Mas a certeza absoluta pode ser confundida com tirania.
- Ué, mas você acabou de dizer... eu disse que parece que você muda toda hora de opi... Olha, eu já li em livros históricos que você também foi ditador.
- De qual dos Zumbi você fala??? Eu sou tantos. Tantos falam de minha pessoa e querem saber e dizer como sou... o que penso.
- Mas eu tenho minha opinião.
- Sim, você tem. Cada concebe o Zumbi da forma que merece e deseja. Como eu sou para você?
- Vou responder isso com uma música que eu fiz.

Continua... aparentemente a História não tem fim.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

DONA JOANINHA E O FUSCÃO PRETO

Dona Joaninha estava lavando o convés do navio.

A embarcação singrava despreocupadamente pelas serenas AGUAS DOCES do Sena. Ela parou um pouco para apreciar o gorjear da cotovia. Ou Seria o canto do Tremendão que ainda ecoava em seu coração desde a vez recente que estivera em terra firme?!!!
De qualquer modo, nesse enlevo inebriante em que se encontrava sob os domínios do rio Sena, Dona Joaninha sentiu a leve brisa de Zéfiro (o Vento Oeste dos Enamorados) lhe trazer um pequeno papelzinho colorido.
O papel colou bem em seu pequeno e delicado narizinho de batatinha.
Ficou ali parada, com o papel que, meio bêbado, meio equilibrista, se refestelava em seu nariz.
Instante de nada, de um tudo que fez sentir vontade continuar ali, com o papel lhe fazendo cócegas em seu nariz. Mas seus olhos, mas impacientes e analíticos que seu nariz, quis saber quem era esse visitante.
Viraram-se os olhos lentamente para baixo e olhou, com seus olhos, o papel colorido na ponta do nariz de batatinha.
Imediatamente enviou mensagem de aviso ao cérebro e este processou os dados.
Dona Joaninha vibrou de alegria.
Sob as calmas águas doces do Sena, Dona Joaninha havia encontrado um bilhete premiado.
- Vale cem mil dólares.
Dona Joaninha pensou nas possibilidades: Cem Mil dólares, casamento.
Pensou mais ainda – Cem Mil dólares, iates, casamento.
Pensou mais ambiciosamente – Cem mil dólares, mansões, casamento.
Pensou – Cem mil dólares, limusines, casamento.
Pregou no mural do navio o seguinte convite:
EU, DONA JOANINHA, DE GÓIAS VELHO, ACHEI UM BILHETE PREMIADO NO SENA E RESOLVI ME CASAR. OS CANDIDATOS SE APRESENTEM IMEDIATAMENTE, MAS COMO SOU MUITO sensível e inspiro cuidados, NÃO PODE SER UM NOIVO MUITO BARULHENTO, SENÃO TODA NOITE VOU FICAR INCOMODADA.

O primeiro a aparecer foi o Seu Coronel Boi, direto das bandas do Nordeste.
De camisa estampada e sapatos brancos combinando com o chapéu rosa.
O Seu Coronel Boi tinha uma barriga muito grande e comia uma bananada.
De gestos largos e sorriso franco ele falou com sua voz grave – Sou seu candidato ideal.
Dona Joaninha simpatizou e sentiu um arrepio na espinha ante aquela presença forte. Ela suava forte e o aroma do boi chegava a suas narinas sem ser convidado e era muito bem aceito por estas.
Dona Joaninha perguntou-lhe se era barulhento, ao que ele imediatamente pegou de seu saxofone e tirou um som muito maneiro.
Era um baião assim, meio estranho porque ao mesmo tempo tinha uma autenticidade totalmente leal as suas raízes nordestinas. E ao mesmo tempo, o baião que saia do saxofone tinha um arranjo totalmente alienígena. Algo que nunca se ouvira antes naqueles termos e que despertava o que de mais básico e espontâneo existe em nossas almas. Renascença não ia gostar de ouvir o baião desse boi. Nordestino também não. Mas quem achar bonito vai gostar, porque afinal musica ou é bonita ou não é. E beleza é coisa muito difícil de partilhar um com o outro. Mas fácil partilhar um “baião de dois” do que a mesma opinião sobre esse ou aquele baião.
Dona Joaninha não esperou o termino e o interrompeu assustada – Um som assim, sem que eu possa saber se é brasileiro nordestino ou se é experimentalismo de músico doidão vai assustar-me todas as noites. Quero não. Lá em Goiás tem disso não. Tem disso não!!!
Foi todo choroso o Seu Coronel Boi rejeitado. Pensou em compensar essa rejeição na cozinha do navio.

Em seguida chegou o Grão Duque Leão, uma cria da região Sul do Brasil.
Sujeito garboso, de constituição física robusta e com músculos com contornos bem definidos. Deu jeito, com o pretexto de ajeitar sua camisa, de levanta-la um pouco, para mostrar seu abdome cortado no estilo “tanquinho”.
Dona Joaninha encantou-se e seus olhos brilharam ante tal visão. Seu coração palpitou.
De medo de tal sensação, Dona Joaninha foi direto ao assunto perguntando-lhe se ele era barulhento.
O Grão Duque Leão sacou de seu pandeiro e respondeu – Oxente, que eu sou é formoso, dona moça. Escute.
Algo de muito barroco tinha ali. Exagerado, nada simples.
Dona Joaninha, com raiva falou - Coisa de louco.
Em Goiás tem disso não. Tem disso não.
Vai-te daqui, seu felino convencido.
O nobre felino deu um muxoxo e um soco no vazio e saiu com passos firmes e nervosos.

Em seguida, quando Dona Joaninha já perdia suas esperanças, chegou o terceiro, que era o Doutor Águia.
Doutor Aguia, que natural da região Norte do Brasil, era uma criatura bela em seu todo seu aspecto e conjunto, mas tudo isso era eclipsado pela frieza demasiada cerebral.
Ele tinha um jeito meio ameríndio. Era calado e tinha um ar senhorial e distinto. Nariz empinado e olhos ao mesmo tempo vazios e invasores.
Dona Joaninha admirou-se do bom doutor e sábio índio da região Norte.
Ela pensa - Quem sabe se é justamente do Norte que será meu marido?
Dona Joaninha pensou muitas coisas. Sua cabeça encheu-se de expectativas.
Dona Joaninha nem precisou fazer-lhe a sua principal pergunta, pois antes disso, Doutor Águia foi pegando em seu gravador portátil e lhe mostrando seu belíssimo trabalho em piano com toques de eletrônico, muito ao estilo do funk alemão da década de 70.
E ele tocou um rock meio pesado, meio melancólico. Um rock assim meio medieval.
Constrangida, Dona Joaninha recusou - Vai me deixar triste todas as tardes. Desculpe, meu bom doutor, eu não mereço o senhor. No Goiás tem disso não. Tem disso não.
Sem esboçar reação de agrado ou desagrado, foi embora, o bom Doutor Águia, com seu mesmo ar blasé com que havia chegado.

No fim de tudo, lá pelas tantas, ficou-se sabendo que Dona Joaninha marcou casamento com Carioquinha. E não se sabe o que ele faz ou deixa de fazer.
Dona Joaninha talvez nem tenha lhe perguntado ou exigido nada além do fato dele existir.
Na manha do dia do casamento estava o Carioquinha esperando. Quem realizaria o casamento seria o Capitão do Navio.
Um cochicho se ouviu e contaram para Carioquinha a triste noticia.
Alguém vira, na vez recente que o navio tinha estado em terra firme, ou nem tão firme assim, o fato inusitado e lamentável.
Viram Dona Joaninha indo embora sozinha, dirigindo num fuscão preto, todo feito de aço.
O fuscão era feito de aço e fez o passado de Dona Joaninha em pedaços. Também aprendeu a amar.


Essa historinha é um texto teatral que foi criado de improviso, assim mesmo, no tranco,( em meia hora) em 1990, para ser o casamento na roça, da festa junina que foi realizada no bairro de Vila Valqueire, na rua das Camélias. Só tempos depois ela foi passada para o papel. Na primeira montagem dela, foi feita sem texto. O grupo de teatro Valqueire (que também foi batizado nesse mesmo evento) teatralizou o texto com emoção e à partir da ideia básica da peça. Não houve texto escrito. Combinamos como seria a peça e nos apresentamos, sem decorar nada. O caminho foi inverso do que geralmente acontece com os textos teatrais: Ele já nasceu improviso e peça e só depois foi para o papel.

O autor é Wanderson Silva de Souza, que é o blogueiro que vos escreve e que posta nesse espaço virtual.

NOVELA – 25/02/2007

E João Pedro amou Maria Joana. Maria Joana também amou João Pedro.

Mas o amor deles tinha que ser impossível por ser desse amores de novela.
E, talvez por isso mesmo eles terminem juntos, felizes para todo o sempre no último capitulo.
Você já chegou ao seu último capítulo?

Da série “Revelações do Caderninho de 2007”

terça-feira, 9 de março de 2010

LOBO CINZENTO

Caminhava preguiçosamente.

Não tinha pressa. Apenas as horas do tempo regiam seu tempo sem tempo.
Parou diante de minha casa. Fixou seu olhar no meu.
O lobo queria mais fogo. Seu fogo era velho e calmo. Eu tremi.
- Vem aqui.
- Espere...
- Por favor, não se demore.
- Estou...
- Que faz na janela?
- Vendo um...
- Ahhh... certo, certo.
- Venha aqui. Preciso de você.
- Não tenha medo.
- Medo?! Não tenho medo. Apenas sinto frio.
O frio era apenas interior. O calor era imenso e ainda assim seu corpo se fechava num abraço em si mesmo como a tentar conter todas as dores do mundo que havia acumulado em seu poucos anos de vida.
- Venha aqui. Quero lhe falar.
O lobo não estava mais lá.
Aproximei-me de seu olhar suave e vi o que queria me dizer.
- Agora você sabe: Eu não vou ficar muito tempo com você.


No dia seguinte... o sol parecia ser eterno e vi um lobo passar por entre nós e nos ignorar solenemente.
- O que foi?
- Você vai rir do que vou dizer. Eu vi... acho que vi um lobo. Senti um lobo passar por entre nós.
- Há, há, há... tem razão. Isso é engraçado.
- Estava doente ontem. Parecia tudo tão cinzento e frio.
- Eu não estava doente.
- Estava sim. Me disse que não ficaria muito tempo comigo.
- Foi um sonho seu.
- O lobo foi sonho.


O lobo passou por entre nós e eu senti um calor absurdo. Era um dia quente de verão. Mas o verão passou, assim como o lobo.
- Vem aqui, preciso de você.
- Quer me falar algo?!
- Sim, sinto frio.
- Deve ser o lobo que fica nos olhando.
- Não vou ficar muito tempo com você.
- Eu sei.
- Sabe?!
- Vejo em seus olhos isso.
- Não tem medo dos tempos futuros continuarem cinzas??? Sinto-me tão mal.
- Isso passa.


Na noite de um inverno rigoroso, tomávamos leite com mate e assistíamos um programa ruim de TV.
- Acho que vi um lobo.
- Quer trocar de canal?
- É um cão. É matéria estúpida de inutilidade pública.
- Sinto um friozinho gostoso.
- Como!? Faz um calor tremendo! Eí, a luz apagou.
- Viverei para sempre. Sinto-me tão bem.
- Isso passa.

Assina esse conto alguém: Eu Wanderson

sexta-feira, 5 de março de 2010

UM DIA NA PRAIA

ERA UMA MANHA DE SOL QUENTE.

DE REPENTE SEVERINO PENSOU QUE PODIA APROVEITAR MELHOR O TEMPO INDO À PRAIA. ENTÃO FOI.

-ESSA PRAIA ESTA MUITO BOA. VOU DAR UM MERGULHO. NÃO. ACHO QUE AGORA TOMAREI UM PICOLÉ.
-DRAGÃO CHINÊS, DRAGÃO CHINÊS, DRAGÃO CHINÊS.
-EI, MOÇO, QUANTO ESTA O DRAGÃO?
-40 CENTAVOS.
-TUDO ISSO?! MAS NO TREM VENDEM POR 20 CENTAVOS.
- NÃO ESTAMOS NO TREM, NÃO É MESMO?!
APÓS A DESCORTEZIA, SEVERINO DISPENSOU O AMBULANTE E SEU ICE CREAM E SE PÔS A PENSAR. AO LONGE, O DITO AMBULANTE SE AFASTANDO, INDIFERENTE AO PROTESTO DO CONSUMIDOR AVILTADO.

SEVERINO PENSOU. SEVERINO PENSOU. PENSOU, PENSOU E PENSOU.
SEVERINO PENSA: - ACHO QUE VOU EMBORA, JÁ ESTOU SATISFEITO – E SEVERINO SE FOI.

A VIAGEM NÃO FOI MUITO CURTA, SE COMPARADA AO PERCURSO QUE NORMALMENTE SEVERINO FAZ DE SUA ESTEIRA LOCALIZADA NO QUARTO 4 ATÉ O BANHEIRO, LOCALIZADO À ESQUERDA DO TANQUE DE LAVAR ROUPAS E À ALGUNS METROS DO PORTÃO DE MADEIRA; MAS TAMBÉM NÃO FOI MUITO LONGA, SE COMPARADA À PENOSA JORNADA QUE SEVERINO FIZERA DE SUA TERRA ATÉ ESSA GRANDE MEGALOPOLE, HÀ UNS SEIS ANOS ATRÁS.

- AMANHA VOU COMER EMPADA COM CALDO DE CANA COM AQUELA MORENA DO CAIXA 8. ACHO QUE ELA VAI QUERER.
SEVERINO FICOU CONTENTE COM ESTA POSSIBILIDADE. PODE-SE DIZER QUE ATÉ UM POUCO EXCITADO.

- VOU DORMIR. HOJE TEM FLAMENGO E VASCO, AMANHA O CHICO ME DIZ O RESULTADO.

ASSINADO: Wanderson Silva de Souza(Todos os direitos e deveres reservados.)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

VOLTA DO MUNDO

Nunca gostei de Mariana.

Ela é de uma franqueza cruel e se compraz em maldizer e hostilizar tudo que faço e represento.
Antes, achava que era minha tendência a sempre pensar nas pessoas como naturalmente antipáticas. Mas não. Não no caso de Mariana. Ela eu sei que tem especial rejeição por mim. Já comprovei isso em inúmeras ocasiões. E, na entrevista que nosso grupo concedeu hoje, constatei sem nenhuma sombra de dúvida a nossa inimizade.
Mariana não deixou-me ter direito à palavra um único instante da entrevista. Ela me eclipsou e eu JAMAI ESQUECEREI DISSO.

- O mundo dá voltas. Foi só o que pensei depois que ela deliberadamente impediu que eu me expressasse ao jornalista.
Desejei do fundo de meu coração: Que o mundo desses voltas.
Dizem que quando desejamos algo muito intensamente, esse algo acontece. Sempre tive fé nessas coisas.
UM DIA MARIANA VAI PRECISAR DE UM FAVOR MEU.

Duas horas depois, Mariana e eu conversamos sobre uma real e inesperada necessidade de uma de nós duas.
- Escute aqui...
- O quê... tenho o dinheiro para seu taxi. O que quer dizer?
- Você tem?! Vai me emprestar???
- Lógico, Claudia. Eu não deixaria você voltar para casa sozinha e a pé, numa hora tão tarde. Pode ficar a vontade para decorar o texto na casa de Marco. Na volta, vá de taxi.
- Depois eu...
- Claro. Depois você me paga a grana.
- Obrigada, Mariana.

E o mundo deu voltas: NESSE MESMO DIA, EU PRECISEI DE UM FAVOR DE MARIANA.
O mundo da voltas... Bobagem! Nunca acreditei nessas coisas mesmo.
Grande bobagem... o universo conspira mesmo contra minha pessoa.

No fim, quando fui agradecer Mariana, ela, com um sorriso displicente, retruca: Bobagem, Claudia. Não foi nada demais. Hoje foi você que precisou. Amanha pode ser eu que possa precisar de você.
- É, Mariana. O mundo da volta.
- Acredita nisso?
- Sim... não... sei lá, nunca se sabe.

Conto de Wanderson Silva de Souza